domingo, 17 de abril de 2016

A falência do governo

Antes de tudo: não entendo que Dilma Rousseff cometeu quaisquer crimes no exercício da Presidência da República. Mas sou crítico ao seu governo. Todavia, não concordo com impeachment.

Muito bem, a culpa maior de todo esse turbilhão político é do próprio governo. Em 2015, Dilma e seus ministros superestimaram o tamanho da bancada governista na Câmara dos Deputados. A derrota acachapante de Arlindo Chinaglia para Eduardo Cunha, na eleição para a presidência da Casa, deveria ter ligado o sinal de alerta no Palácio do Planalto. Mas, Dilma e seus principais aliados, ao invés de trazer mais para dentro do governo aqueles 136 sujeitos que votaram no petista, tentaram o caminho mais curto: usar Michel Temer e Eliseu Padilha para conter os dissidentes peemedebistas que deram a primeira de muitas vitórias de Cunha no Parlamento. O preço foi cobrado ontem, com juros e correção. Os dois assistiram lado à lado a maior derrota de Dilma.

O governo Dilma, numa linguagem bem popular, contou com o ovo no cu da galinha. E se deu mal. Neste domingo, ficou estampado no plenário da Câmara o real tamanho da bancada governista: 137 - um deputado a mais do que na votação de 2015. Dilma pagou o preço por não saber negociar com raposas velhas. Infelizmente, o sistema político brasileiro é assim: ou você alimenta as ratazanas, ou elas se juntam para lhe atacar. Dilma governou com princípios, e não alimentou os porcos com a quantidade de lavagem necessária para eles se satisfazerem.

Durante esse tempo todo, a presidente foi distribuindo nacos do governo para legendas que nunca tiveram nada a ver com a ideologia petista. Criou ministérios para satisfazer a Deus e o mundo, e se esqueceu da "esquerda".

Recorrer aos tribunais, agora, é derrota na certa. Por maiores os vícios presentes em todo o processo - desde a instalação por pura vingança de Eduardo Cunha, até a votação derradeira -, o STF não irá se meter nessa treta. Tentar argumentar com Renan Calheiros, presidente do Senado, é outra tarefa fadada ao revés. Duvido que o sujo Renan queira ficar contra o roto partido que o abriga. A queda do governo é certa pois Dilma Rousseff deu as costas para aqueles que, realmente, a apoiavam. Quando buscou guarita, o apoio veio, mas no mesmo tamanho de 15 meses atrás.

O governo perdeu sua governabilidade. Ou melhor, nunca a teve, Legítimo aos olhos de parte da população, caiu na ira de parlamentares cansados de migalhas. Engana-se quem pensa que os "probos" oposicionistas e peemedebistas lutarão pelo fim da corrupção. Ao contrário, basta ver que o deputado do voto 342, Bruno Araujo-PSDB, está na planilha da Odebrecht. PMDB, PSDB, DEM e os demais farão de tudo para manter as irregularidades, e já têm até a justificativa para um longo período de cortes em conquistas recentes: "a herança maldita do PT".

Guardo os dois últimos parágrafos para comentar sobre os discursos dos 511 deputados. É deprimente ver que o legislativo brasileiro está infestado de homens e mulheres sem o mínimo preparo para representar o povo. Um votou a favor do impeachment pela PAZ EM JERUSALÉM. Outro usou o momento para parabenizar a neta que fez aniversário ontem. Sem contar o infeliz que fez homenagem a uma das pessoas mais nefastas deste país, o ex-coronel do DOI-CODI, Brilhante Ustra. Mas a cereja do bolo foi o deputado Francisco Everardo, o popular Tiririca. Em seu segundo mandato, usou o microfone pela primeira vez. Sim, foi a PRIMEIRA FALA dele em quase 6 anos como parlamentar.

Na fala, que durou menos de 20 segundos, o palhaço votou. E o circo aplaudiu. A imagem de Tiririca sendo exaltado mostra a que ponto chegou a política brasileira. Um festival de bizarrices. E não se esqueça: muitos dos que usaram o microfone, tentarão vencer as eleições para prefeito em outubro.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Por que o novo nos assusta?

Até o julgamento final da medida cautelar, a Prefeitura de São Paulo não poderá guinchar carros de motoristas que trabalham para o aplicativo de corridas Uber. Salvo quando o condutor cometer algum crime de trânsito - como dirigir sob efeito de álcool. É uma grande vitória - ainda que parcial - para empresa, após as cenas de selvageria protagonizadas por um grupelho de taxistas que não consegue oferecer um serviço com a mesma qualidade.

Eu tenho carro próprio. Uso o transporte coletivo apenas quando preciso ir até o centro de São Paulo. E em apenas uma oportunidade recorri ao Uber. Para ver como é o serviço, e coisa tals. Em suma, para matar a curiosidade - característica comum em grande parcela da população. E fiquei com uma ótima impressão do que vi. É claro que não são todos os taxistas da cidade que estão na cruzada contra o aplicativo. Só aqueles que se assustam com as novidades.

Um amigo meu publicou nas redes sociais que, ao invés do poder público querer regularizar o bendito aplicativo, seria mais fácil da administração abrir mão de uma pancada de impostos cobrados atualmente dos taxistas. E isso me indignou.

Ora, aqui em São Paulo, os taxistas têm 30% de desconto na compra do veículo 0km na concessionária. Entram nessa porcentagem o IOF e o IPI. Além disso, eles não pagam IPVA e podem requerer a isenção do ICMS. Na capital paulista, e no Rio de Janeiro, as cooperativas/associações não pagam o ISS - imposto sobre serviços. No que tange às taxas burocráticas, são cerca de 300 reais ANUAIS. E ainda é necessário o abatimento de impostos?? Menos, né gente....

Os motoristas do Uber não recolhem os impostos, mas não possuem essa série de regalias que os taxistas têm. E outra. Não me recordo da categoria - importante para o transporte da cidade, ressalto - ter enfrentado - por exemplo - os perueiros clandestinos, que reinaram na capital paulista nos anos 80 e 90. Isso só acabou quando, a ex-prefeita Marta Suplicy, regulamentou o serviço de vans, agrupando os motoristas clandestinos, sem preparo, e não pagadores de impostos em cooperativas.

Então, por que o sindicato dos taxistas está tão preocupado com o Uber? Uma eventual regulamentação do aplicativo não irá diminuir o "público" que utiliza o serviço de táxi. Uma pesquisa feita pelo Cade comprovou. Qual o receio da categoria? Por que temem a novidade?

Coisa similar ocorre com as operadoras de telefonia móvel, que tentam vez ou outra suspender as atividades do Whats App no país. Usam argumento parecido: "concorrência desleal". Mas, esquecem-se de fornecer um serviço de melhor qualidade. Um atendimento ao cliente de maior nível. Whats App e Uber são dois belos exemplos que mostram como setores - distintos - da economia tentam espantar o progresso, o moderno. Para esses campos - e tantos outros - o novo assusta.