Antes de tudo: não entendo que Dilma Rousseff cometeu quaisquer crimes no exercício da Presidência da República. Mas sou crítico ao seu governo. Todavia, não concordo com impeachment.
Muito bem, a culpa maior de todo esse turbilhão político é do próprio governo. Em 2015, Dilma e seus ministros superestimaram o tamanho da bancada governista na Câmara dos Deputados. A derrota acachapante de Arlindo Chinaglia para Eduardo Cunha, na eleição para a presidência da Casa, deveria ter ligado o sinal de alerta no Palácio do Planalto. Mas, Dilma e seus principais aliados, ao invés de trazer mais para dentro do governo aqueles 136 sujeitos que votaram no petista, tentaram o caminho mais curto: usar Michel Temer e Eliseu Padilha para conter os dissidentes peemedebistas que deram a primeira de muitas vitórias de Cunha no Parlamento. O preço foi cobrado ontem, com juros e correção. Os dois assistiram lado à lado a maior derrota de Dilma.
O governo Dilma, numa linguagem bem popular, contou com o ovo no cu da galinha. E se deu mal. Neste domingo, ficou estampado no plenário da Câmara o real tamanho da bancada governista: 137 - um deputado a mais do que na votação de 2015. Dilma pagou o preço por não saber negociar com raposas velhas. Infelizmente, o sistema político brasileiro é assim: ou você alimenta as ratazanas, ou elas se juntam para lhe atacar. Dilma governou com princípios, e não alimentou os porcos com a quantidade de lavagem necessária para eles se satisfazerem.
Durante esse tempo todo, a presidente foi distribuindo nacos do governo para legendas que nunca tiveram nada a ver com a ideologia petista. Criou ministérios para satisfazer a Deus e o mundo, e se esqueceu da "esquerda".
Recorrer aos tribunais, agora, é derrota na certa. Por maiores os vícios presentes em todo o processo - desde a instalação por pura vingança de Eduardo Cunha, até a votação derradeira -, o STF não irá se meter nessa treta. Tentar argumentar com Renan Calheiros, presidente do Senado, é outra tarefa fadada ao revés. Duvido que o sujo Renan queira ficar contra o roto partido que o abriga. A queda do governo é certa pois Dilma Rousseff deu as costas para aqueles que, realmente, a apoiavam. Quando buscou guarita, o apoio veio, mas no mesmo tamanho de 15 meses atrás.
O governo perdeu sua governabilidade. Ou melhor, nunca a teve, Legítimo aos olhos de parte da população, caiu na ira de parlamentares cansados de migalhas. Engana-se quem pensa que os "probos" oposicionistas e peemedebistas lutarão pelo fim da corrupção. Ao contrário, basta ver que o deputado do voto 342, Bruno Araujo-PSDB, está na planilha da Odebrecht. PMDB, PSDB, DEM e os demais farão de tudo para manter as irregularidades, e já têm até a justificativa para um longo período de cortes em conquistas recentes: "a herança maldita do PT".
Guardo os dois últimos parágrafos para comentar sobre os discursos dos 511 deputados. É deprimente ver que o legislativo brasileiro está infestado de homens e mulheres sem o mínimo preparo para representar o povo. Um votou a favor do impeachment pela PAZ EM JERUSALÉM. Outro usou o momento para parabenizar a neta que fez aniversário ontem. Sem contar o infeliz que fez homenagem a uma das pessoas mais nefastas deste país, o ex-coronel do DOI-CODI, Brilhante Ustra. Mas a cereja do bolo foi o deputado Francisco Everardo, o popular Tiririca. Em seu segundo mandato, usou o microfone pela primeira vez. Sim, foi a PRIMEIRA FALA dele em quase 6 anos como parlamentar.
Na fala, que durou menos de 20 segundos, o palhaço votou. E o circo aplaudiu. A imagem de Tiririca sendo exaltado mostra a que ponto chegou a política brasileira. Um festival de bizarrices. E não se esqueça: muitos dos que usaram o microfone, tentarão vencer as eleições para prefeito em outubro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário