terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O golpe em carne viva

Sem o mínimo de pudor, a oposição - sob as asas do guardião Eduardo Cunha - deflagrou mais uma operação do golpe para tentar tirar Dilma Rousseff do cargo de presidente da República Federativa do Brasil-sil-sil. Já disse anteriormente, Dilma está longe de ser a melhor chefe de estado deste país. Mas o fato de sua popularidade e aceitação serem ínfimos não é precedente para tirar um governante do poder.

Há alguns dias, no Senado, representantes da oposição bradaram aos quatro ventos querendo que a votação para definir o futuro do senador petista Delcídio Amaral fosse aberta. Justo. Venceram no debate e o Brasil viu naquela noite quem queria defender o corrupto pego com a boca na botija. Nesta terça. o assunto foi diferente: contaram com o apoio do Eduardo Cunha para definir o sigilo em uma votação para eleger uma chapa de oposição para compor o grupo que vai analisar o processo que pede o impeachment de Dilma: confuso né? Pois então, os nobres deputados simplificaram.

"Dane-se a opinião pública", pensaram eles. "Vamos resolver a parada aqui e seguir com o plano mirabolante". E assim foi feito. Duas centenas de deputados da oposição (entenda Cunha, PSDB, DEM, PPS, Solidariedade, dissidentes do PMDB e alguns outros partidos nanicos) deram mais uma prova de como se rasga uma constituição, e o regimente interno da casa sem nenhum tipo de vergonha. No fim levaram a bandeira do Brasil, uns cantaram hino...pra sair na capa do jornal de amanhã.

Jornal esse que vai dar destaque como "derrota do governo", "impeachment avança". Mas vai dar de ombros para a treva onde foi jogada a Câmara dos Deputados. Presidida por um sujeito que usa o cargo para se defender das acusações contundentes e documentadas no Conselho de Ética. E que detém uma rede de aliados disposta a tudo. Sim. TUDO.

Comemoraram a vitória da democracia na Venezuela, e ajudam a enfiar um golpe goela abaixo aqui no Brasil. E muita gente comemora sem entender a gravidade desse processo. A política nacional está viciada. Não há lado bom e lado ruim. Estão TODOS na mesma canoa, defendendo interesse pessoais. Desdenham da opinião pública e fazem o diabo - assim como disse a então candidata Dilma Rousseff em 2014, referindo-se à campanha política. Não é a troca de um governante à fórceps que colocará o país no trilho do crescimento.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Truco em Brasília

Ao autorizar a abertura de um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, Eduardo Cunha usou a última carta que tinha na manga para se manter mais uns meses no cargo de presidente da Câmara dos Deputados. Apesar de ter atirado primeiro, a guilhotina passará pelo seu pescoço antes de uma eventual queda da petista no Planalto.

Cunha mostrou ao país como se faz uma chantagem. No começo do ano, cativou uns membros da base aliada do governo oferecendo proteção dentro do Parlamento. Se achando soberano, Cunha transformou a sala da presidência da Câmara num verdadeiro "bunker", alguns soldados se alistaram e pronto: montou sua tropa com a conivência da oposição e de parte da grande mídia, que ainda estavam (e estão) inconformados com a reeleição de Dilma. Isso custou muito, mas muito caro.

O ano foi avançando, alguns projetos conservadores foram aprovados (com a ajuda da oposição e da imprensa) e Cunha se sentiu o dono do país. Nisso, a oposição viu um aliado para derrubar a presidente. Paralisaram o país no campo político e - sobretudo - no econômico. Porém, após as sucessivas denúncias contra Cunha, a oposição, que comia na mão do presidente da Câmara, lhe deu as costas. Começaram os ataques contra Cunha e no Conselho de Ética a posição foi de aceitar a tramitação de um processo de cassação. Mas aí já era tarde demais. O estrago já estava feito, repito com a conivência da mesma oposição e da mídia.


Foi nesse momento que a chantagem, o achaque ficaram expostos em carne viva. Cunha flertou com os dois opostos (PT e PSDB) visando salvar o próprio pescoço. Como ficou num beco sem saída, aceitou o pedido de impeachment. Retaliação pura. Afronta. Não há "indícios técnicos". E sim um revide. Mostrando o quão rasteiro é o jogo político em Brasília. Agora, Cunha seguirá com aqueles soldadinhos de chumbo mas sem a proteção de ninguém. Virou um copo descartável. E tomara que não seja reciclado.

Você que não gosta da Dilma ou do mandato dela (ou até das duas coisas) não pense que Eduardo Cunha será um herói. Parte da grande imprensa (VEJA, Folha, CBN...) tentará mostrar o contrário - ele será alçado de novo a um patamar de semi-deus, igual ao que ocorrera no começo do ano. Porém, desta vez uma caralhada de denúncias sepultará Cunha. A tropa de choque não será capaz de impedir a queda do ex-dono desse país. Foi péssimo enquanto durou, Cunha. Que você pague pelos crimes cometidos.

Em relação ao combalido governo resta provar que, apesar da gestão desastrosa, repleta de erros, Dilma não cometeu crime. O fato de um governante ser impopular não significa, obrigatoriamente, que ele deve perder o cargo. Dilma deixou bem claro, em seu breve discurso, que irá comparar a sua biografia com a de Cunha para evitar que se crie uma nova bolha protetora no entorno do seu desafeto - pessoal e político. E ao PT cabe o aprendizado, de que não adianta querer pedir truco, sem ter o "zap" na mão.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ABC

Uma conjuntivite vai me afastar da redação do BandNews até a próxima semana. Como não posso coçar os olhos, resolvi coçar o saco e passei boa parte da terça-feira (02) assistindo à séries no Netflix. Parei um pouco para assistir ao circo que é uma sessão do Conselho de Ética da Câmara, e para ver o que rolava nesse mundão de Deus. Eis que vi no Facebook um vídeo gravado por alunos de uma escola no centro de São Paulo no qual Policiais Militares entravam no local sem mandado judicial e com aquela truculência que nós já conhecemos. Depois, vi que os mesmos deixaram o colégio após uns empurrões e spray de pimenta nos olhos da molecada. Voltei ao Netflix.

Fiz uma nova pausa - por volta das 22h30 - para lavar os olhos e comer. E aí assisti às cenas que me deixaram com o estômago embrulhado. Novamente, os arautos da ordem pública usavam seus cassetetes e bombas de gás contra um grupo de estudantes, muitos menores de idade e todos desarmados, para "dispersar" um protesto contra o plano elaborado por Alckmin e pelo secretário da educação Herman Woorvald que prevê o fechamento de quase uma centena de colégios em todo o estado e a transferência de 311 mil alunos para outras escolas. A "reorganização" - é assim que o projeto é chamado pela gestão tucana - gerou uma revolta nunca antes vista no ensino público, e culminou com a ocupação de mais de 200 unidades educacionais em todo o estado.

Esse é o diálogo de Alckmin com os estudantes secundaristas
Talvez você não concorde com o fechamento de uma via pública para um protesto, seja ele qual for. Eu concordo. Esse é o único jeito de mostrar para a sociedade que um grupo de indivíduos tem uma demanda que não é atendida, ou que está reclamado de sua condição atual. Um exemplo: vira e mexe, moradores da região do M'Boi Mirim, zona sul de São Paulo, faziam protestos por melhorias no transporte. Como eles faziam: bloqueando a via, chamando a atenção da imprensa e, consequentemente, do poder público. Repito: talvez você não concorde com esse tipo de situação, mas é fato que as autoridades só jogam luz sobre um problema quando há uma câmera ligada.

E é exatamente a câmera ligada que poderá potencializar o movimento estudantil. É inaceitável que um governante autorize o uso de força contra um grupo de alunos. As cenas de barbárie protagonizadas pela Polícia Militar na Avenida 9 de Julho são revoltantes. É esse o diálogo que Alckmin e Herman tanto pregam? O que ocorreu na via é resultado da total falta de diálogo entre governo e sociedade. A reorganização escolar foi imposta e não proposta pela gestão tucana. Em diversas oportunidades, o governador falou sobre um (UM) estudo que mostra que alunos de escolas de ciclos únicos têm melhor desempenho do que aqueles que estão em colégios convencionais. Então cadê esse estudo? Por que ele não foi exposto para pais, alunos, professores?


O que os estudantes querem é que esse projeto seja construído com a participação deles. Afinal, é a educação que está em jogo. Mas pelo jeito, Alckmin não aprendeu porra nenhuma com as manifestações de junho de 2013. E sabe o que é pior de tudo? Até o fim da semana a repressão policial será esquecida, sobretudo pela imprensa. A assessoria do governo e da Secretaria de Educação vão emitir notas desqualificando o movimento, dizendo que tem viés político, gente se infiltrando, etc...e as redações dos canais de televisão, das rádios, dos portais vão achar isso suficiente. Os repórteres, editores, fechadores vão fazer o serviço burocrático, que agrada o governo, e esperar pelo próximo assunto, pelo próximo protesto, pela próxima repressão truculenta. E assim o ABCdário está completo.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A mil por hora.....de marcha ré

Passou em primeira votação, na Câmara dos Deputados, a Proposta de Emenda à Constituição (guarde esta última palavra) que reduz a maioridade penal, de 18 para 16 anos, para adolescentes que cometam crimes hediondos ou contra a vida de terceiros. Com um sorriso de orelha à orelha, o presidente da Casa, Eduardo Cunha, do PMDB, comemorou o êxito de sua manobra - ou golpe - para que o projeto fosse aceito.

24 horas antes, o mesmo Cunha deixava o plenário Ulisses Guimarães (guarde esse nome) com o gosto amargo da derrota, pois vira a mesma Proposta de Emenda à Constituição (não esqueça de gravar essa palavra, hein?) ser rejeitada pelos mesmos parlamentares que a aprovaram, como sempre, na calada da noite. Nem preciso dizer que o peemedebista usou sua influência política e cobrou que dissidentes de sua sigla e do PSDB não o traíssem de novo. Quer um exemplo: Mara Gabrilli, do tucanato paulista, foi um dos cinco que foi contra a PEC na terça e postou um texto mais longo que este no Facebook. Mas ontem votou seguindo a orientação/pressão de sua bancada. Ótimo ver que temos deputados que facilmente são coagidos.

Mas, lembra que eu pedi para você gravar a palavra Constituição? Vamos lá. Segundo o Caldas Aulete, trata-se de:

Lei fundamental e suprema que regula a organização de um Estado e rege a vida de uma nação, estabelecendo-lhe a forma de governo, as relações entre os poderes públicos, a distribuição de competências, os direitos e deveres dos cidadãos etc; a lei máxima, à qual todas as outras leis devem ajustar-se; CARTA CONSTITUCIONAL; CARTA MAGNA.”

Uma pena ver que 323 deputados simplesmente cagaram para a Carta Magna brasileira. Ulisses Guimarães (olha ele aí!), símbolo da redemocratização do país, na década de 80, estar se revirando no túmulo (ou sei lá onde) até agora. Guimarães foi quem mais contribuiu para que a Constituição fosse justa ao Brasil, daquela época. Tanto é que chamava a Constituição de “Constituição Cidadã”.

Os 323 que votaram a favor da PEC 171 (o número não é mera coincidência) mostraram seu total desprezo pela Constituição. O artigo de número 60, parágrafo quinto, é claro: “Matéria constante de proposta de emenda rejeitada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa”. Ou seja: o assunto principal da proposta rejeitado anteriormente não pode ser votado no mesmo ANO. E Cunha, com o apoio da oposição, deu uma rasteira na Carta Magna, ao votar um outro projeto COM O MESMO OBJETIVO, reduzir a maioridade penal. Não importa se há menos crimes nesse projeto paralelo. O fim é o mesmo.

Para Cunha não há limites. E com boa parte do Parlamento aos seus pés, ele faz o que bem entende sem mostrar nenhum constrangimento ou vergonha. E mais: na frente de todos. Com a complacência de grande parte da “grande mídia”, o presidente da Câmara afia ainda mais as suas garras. Concede entrevistas, toca até bateria em rede nacional, enquanto quem “samba” é a sociedade.

Sociedade, aliás, que elegeu esse Parlamento que aí está. Com pastores, bispos, e ex-policiais por todos os lados. Estamos vendo o Brasil se transformar em um país do século XVII em pleno século XXI. E em uma velocidade incrível. Que salta aos olhos. E eu que pensava que a Grécia é quem estava fodida...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A arapuca do Zeca Camargo

Por mais que muita gente não aceite, a música sertaneja é a mais tocada no Brasil. Seja nas rádios, nas baladas, em festas particulares ou em botecos bem sujos. Em qualquer canto do País há alguém ouvindo a tão conhecida "música de corno". Mesmo quem não consome (no caso ouve) esse tipo de melodia, certamente já soltou a voz para bancar o Xororó em algum karaokê.

Em 2012, fiz um estudo para entender o que faz uma pessoa ouvir a mesma rádio todo santo dia. E percebi que as emissoras cujo público-alvo são as classes C, D e E lideram as pesquisas sobre audiência. Logo, a maioria dos brasileiros escuta música sertaneja. Afinal é esse ritmo, ao lado do pagode, forró e funk que predominam nas programações das “rádios populares”.

Com 24 horas de atraso assisti ao comentário do Zeca Camargo. Ele tentou fazer uma reflexão sobre a comoção nacional - e foi mesmo - em torno da morte de um cantor sertanejo desconhecido para um naco da sociedade até então.  Li todo o tipo de comentário - a favor e contra. Em certo ponto, ele tem razão. O Brasil carece de ídolos RECENTES. Afinal, seria uma burrice dizer que o Pelé ou Roberto Carlos não são expoentes nacionais - apesar de os dois já terem sido alvo de críticas e piadas por parte da mídia e da população em geral. Mas, vamos pensar um pouco: há alguém no meio artístico ou esportivo que consiga cativar todos os grupos da sociedade, como fizeram Senna, Cazuza, Tim Maia, Renato Russo, Elis Regina, Ronald Golias e tantos outros?

Claro que existem os ídolos “segmentados”. No esporte, no jornalismo, no cinema, na culinária, na política, etc... Certamente quem escutava sertanejo sabia quem era o Cristiano Araújo. Eu sabia. Fui num show dele, aliás. Em 2011, quando passei o Ano Novo em Minaçu, Goiás, na casa de um tio meu. Mas, adiante. Quem não era, digamos, antenado naquele universo não sabia que Cristiano Araújo fazia tanto sucesso assim. E isso é um problema? Não. Ninguém é obrigado a saber tudo sobre todos os assuntos. Cada um ouve o que quer, oras.

O grande problema é que na maioria de casos como esse, as pessoas “desdenham” da importância do sujeito. E isso já ocorreu milhares de vezes. Não é exclusividade do falecido. Mas, só nos deparamos com isso agora por causa das redes sociais, esse canhão de opiniões difusas e confusas. E talvez o Zeca Camargo tenha caído nessa arapuca. De relativizar um assunto que, querendo ou não, ocupou as manchetes dos telejornais país afora. E virou até pauta de reportagens, sobre a segurança de veículos importados, o uso – obrigatório – do cinto de segurança no banco traseiro, e por aí o vai.

O que percebi com esse causo todo é que ainda não pensamos muito na dor alheia. Por um instante, até sentimos aquele baque. Mas logo em seguida tudo passa e ficamos à espera do próximo caso de comoção. É óbvio que temos que “seguir com nossas vidas”. Porém, simplesmente “dar de ombros” para o que ocorreu, pensar que “ele (a) não era ninguém” demonstra uma pobreza de espírito muito grande.