Uma conjuntivite vai me afastar da redação do BandNews até a próxima semana. Como não posso coçar os olhos, resolvi coçar o saco e passei boa parte da terça-feira (02) assistindo à séries no Netflix. Parei um pouco para assistir ao circo que é uma sessão do Conselho de Ética da Câmara, e para ver o que rolava nesse mundão de Deus. Eis que vi no Facebook um vídeo gravado por alunos de uma escola no centro de São Paulo no qual Policiais Militares entravam no local sem mandado judicial e com aquela truculência que nós já conhecemos. Depois, vi que os mesmos deixaram o colégio após uns empurrões e spray de pimenta nos olhos da molecada. Voltei ao Netflix.
Fiz uma nova pausa - por volta das 22h30 - para lavar os olhos e comer. E aí assisti às cenas que me deixaram com o estômago embrulhado. Novamente, os arautos da ordem pública usavam seus cassetetes e bombas de gás contra um grupo de estudantes, muitos menores de idade e todos desarmados, para "dispersar" um protesto contra o plano elaborado por Alckmin e pelo secretário da educação Herman Woorvald que prevê o fechamento de quase uma centena de colégios em todo o estado e a transferência de 311 mil alunos para outras escolas. A "reorganização" - é assim que o projeto é chamado pela gestão tucana - gerou uma revolta nunca antes vista no ensino público, e culminou com a ocupação de mais de 200 unidades educacionais em todo o estado.
Talvez você não concorde com o fechamento de uma via pública para um protesto, seja ele qual for. Eu concordo. Esse é o único jeito de mostrar para a sociedade que um grupo de indivíduos tem uma demanda que não é atendida, ou que está reclamado de sua condição atual. Um exemplo: vira e mexe, moradores da região do M'Boi Mirim, zona sul de São Paulo, faziam protestos por melhorias no transporte. Como eles faziam: bloqueando a via, chamando a atenção da imprensa e, consequentemente, do poder público. Repito: talvez você não concorde com esse tipo de situação, mas é fato que as autoridades só jogam luz sobre um problema quando há uma câmera ligada.
![]() |
| Esse é o diálogo de Alckmin com os estudantes secundaristas |
E é exatamente a câmera ligada que poderá potencializar o movimento estudantil. É inaceitável que um governante autorize o uso de força contra um grupo de alunos. As cenas de barbárie protagonizadas pela Polícia Militar na Avenida 9 de Julho são revoltantes. É esse o diálogo que Alckmin e Herman tanto pregam? O que ocorreu na via é resultado da total falta de diálogo entre governo e sociedade. A reorganização escolar foi imposta e não proposta pela gestão tucana. Em diversas oportunidades, o governador falou sobre um (UM) estudo que mostra que alunos de escolas de ciclos únicos têm melhor desempenho do que aqueles que estão em colégios convencionais. Então cadê esse estudo? Por que ele não foi exposto para pais, alunos, professores?
O que os estudantes querem é que esse projeto seja construído com a participação deles. Afinal, é a educação que está em jogo. Mas pelo jeito, Alckmin não aprendeu porra nenhuma com as manifestações de junho de 2013. E sabe o que é pior de tudo? Até o fim da semana a repressão policial será esquecida, sobretudo pela imprensa. A assessoria do governo e da Secretaria de Educação vão emitir notas desqualificando o movimento, dizendo que tem viés político, gente se infiltrando, etc...e as redações dos canais de televisão, das rádios, dos portais vão achar isso suficiente. Os repórteres, editores, fechadores vão fazer o serviço burocrático, que agrada o governo, e esperar pelo próximo assunto, pelo próximo protesto, pela próxima repressão truculenta. E assim o ABCdário está completo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário