quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Truco em Brasília

Ao autorizar a abertura de um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, Eduardo Cunha usou a última carta que tinha na manga para se manter mais uns meses no cargo de presidente da Câmara dos Deputados. Apesar de ter atirado primeiro, a guilhotina passará pelo seu pescoço antes de uma eventual queda da petista no Planalto.

Cunha mostrou ao país como se faz uma chantagem. No começo do ano, cativou uns membros da base aliada do governo oferecendo proteção dentro do Parlamento. Se achando soberano, Cunha transformou a sala da presidência da Câmara num verdadeiro "bunker", alguns soldados se alistaram e pronto: montou sua tropa com a conivência da oposição e de parte da grande mídia, que ainda estavam (e estão) inconformados com a reeleição de Dilma. Isso custou muito, mas muito caro.

O ano foi avançando, alguns projetos conservadores foram aprovados (com a ajuda da oposição e da imprensa) e Cunha se sentiu o dono do país. Nisso, a oposição viu um aliado para derrubar a presidente. Paralisaram o país no campo político e - sobretudo - no econômico. Porém, após as sucessivas denúncias contra Cunha, a oposição, que comia na mão do presidente da Câmara, lhe deu as costas. Começaram os ataques contra Cunha e no Conselho de Ética a posição foi de aceitar a tramitação de um processo de cassação. Mas aí já era tarde demais. O estrago já estava feito, repito com a conivência da mesma oposição e da mídia.


Foi nesse momento que a chantagem, o achaque ficaram expostos em carne viva. Cunha flertou com os dois opostos (PT e PSDB) visando salvar o próprio pescoço. Como ficou num beco sem saída, aceitou o pedido de impeachment. Retaliação pura. Afronta. Não há "indícios técnicos". E sim um revide. Mostrando o quão rasteiro é o jogo político em Brasília. Agora, Cunha seguirá com aqueles soldadinhos de chumbo mas sem a proteção de ninguém. Virou um copo descartável. E tomara que não seja reciclado.

Você que não gosta da Dilma ou do mandato dela (ou até das duas coisas) não pense que Eduardo Cunha será um herói. Parte da grande imprensa (VEJA, Folha, CBN...) tentará mostrar o contrário - ele será alçado de novo a um patamar de semi-deus, igual ao que ocorrera no começo do ano. Porém, desta vez uma caralhada de denúncias sepultará Cunha. A tropa de choque não será capaz de impedir a queda do ex-dono desse país. Foi péssimo enquanto durou, Cunha. Que você pague pelos crimes cometidos.

Em relação ao combalido governo resta provar que, apesar da gestão desastrosa, repleta de erros, Dilma não cometeu crime. O fato de um governante ser impopular não significa, obrigatoriamente, que ele deve perder o cargo. Dilma deixou bem claro, em seu breve discurso, que irá comparar a sua biografia com a de Cunha para evitar que se crie uma nova bolha protetora no entorno do seu desafeto - pessoal e político. E ao PT cabe o aprendizado, de que não adianta querer pedir truco, sem ter o "zap" na mão.


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